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5.11.11

RELATO DE UMA VÍTIMA DO DESASTRE DO MORRO DO BUMBA EM ABRIL DE 2010

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PROPÓSITO DE VIVER (laudenir alves de souza "sangue bom de ecoporanga")
 


"Senhor Senhor, por quê me abandonastes?"
O meu marido sem emprego. Os meus filhinhos gritam de fome. Vizinhos pobres dividem-se comigo.
Ainda ontem pude ver o que chamam de felicidade! Enormes carretas exóticas de cor vermelha subindo à nossa comunidade. Algumas menores, outras gigantescas. Mais pareciam às que meu filhinho Tiquim havia-me relatado, pois, Tião meu vizinho passou esse filme em sua barraca semana passada. Tião era muito legal com as crianças! No passado ele cumpriu pena, mas... bem... o juíz o soltou.
O comboio subia bem rápido nas pequenas ruas estreitas. Pude ver escadas brancas, pretas e... meio que sujas de barro. Todos os meus vizinhos saíram para ver. A criançada adora!
Naquele momento, as informações foram-se cruzando. Jorge, que trabalha de porteiro chegou em seu chevete verde e disse pro Bacana: "Caramba! Você nem tem idéia do que acaba de acontecer do outro lado do morro... Desabou casas e foi encontrado apenas um cachorro vivo". Eram cinco horas da tarde de Sete de Abril do corrente 2010. Parte das pessoas que estavam ali correram para ver o resgate dos carros vermelhos que aqui passavam às pressas. Eu bem que queria ir, porém, Lourdinha estava dormindo e eu tive precentimentos mórbidos, pois, da casa ao lado da minha brotava uma água escura e saía junto uma fumaça malcheirosa.
Dona Mariquinha veio até minha casa trazendo uma xícara vazia e pediu-me parte do meu açúcar. Ela disse que era para fazer um café bem forte para Gabriel e Bartolomeu. Achei estranho, pois, há dez anos de habitação ali dona Mariquinha nunca tinha vindo à minha casa. Ainda mais que ela conhecesse essas duas pessoas. Ainda trouxe-me um recado de um deles, que dizia: "perdoa sempre quem lhe fez algum mal". Conforme o meu coração estava cheio de compaixão, devido os últimos acontecimentos no Haiti, Chile e ali bem do meu lado eu nem questionei e disse que estaria muito bem. A convidei a entrar e dividi o meu açúcar com àquela doce velhinha! Ao se despedir, virou-se e disse: "Marta, você sabia que há muitos anos jogavam muito lixo aqui?" Eu disse à ela que minha finada madrinha criou seus filhos naquele lixão. Que apesar de muito pequena, mamãe trabalhava longe e madrinha cuidava de mim, portanto, andei descalça por muitas vezes ali. Então ela se foi.
Muitos pensamentos vinham à minha cabeça naquela noite. Um deles era o de um homem cantando "hap" na internet. Lembro-me da primeira vez que acessei. Ainda sem entender direito, o primeiro "clip" do Youtube foi um homem chamado Sangue Bom de Ecoporanga, cujo título era: Juventude.
De repente, bateu-me uma grande desolação. Algo inexplicável. Uma tristeza e aflição. Só lembrava de meus filhos, então, fui até às suas caminhas no chão do meu cômodo e os beijei.
Para quem mora nos interiores ou tem muito dinheiro à ponto de poder morar nos grandes centros urbanos, talvez fica distante a compreensão do que realmente vivemos em morros e palafitas. Em grande número de vezes, nosso lar se torna o nosso próprio túmulo.
Existem vários tipos de mundos dentro de um só:
* O mundo dos altamente privilegiados, ao qual tudo gira em torno de seus desejos.
* O mundo daqueles que vivem sentados em suas mesas criando estatísticas.
* O mundo da classe média, que se comovem e até colabora com tais causas sociais.
* O mundo dos pobres. Áqueles que pegam no batente e traçam como lema das suas vidas o trabalho iminente. São verdadeiros heróis cuja suas mulheres dividem-se em trabalhar fora e cuidar de seus próprios lares.
* O mundo dos mais pobres, cujos vivem o dia a dia à procura de ocupações justas ou não. Esta classe é extremamente instável. É considerada hostil por vários fazendeiros, pois, é composta de grupos sindicais, sem-terras e pessoas viciadas.
* O mundo dos excluídos. Esse grupo vive à margem do chamado bem-estar da sociedade. É o meu grupo. Só nos restam aqui nesta comunidade a opção que temos. Moramos aqui porque nem pontes e viadutos conseguimos como forma de consolo. Sabem do mais... até que gosto daqui. Me parece mais tranquilo!
Este país não é justo. Muito se fala e pouco realmente é feito. A própria Constituição é falha. Nunca ouvi dizer que meu pai ou um membro da minha comunidade fora convidado a criar algum artigo de qualquer lei neste país. Apenas quem pouco ou nunca fez parte das nossas vidas é quem ditam as nossas regras. Pra quê? Como pode o leão dizer a uma formiga que ela seria mole demais e lenta demais? Acho mais adequado que o tamanduá faça isto, já que são justamente as formigas parte de sua dieta!
São oito horas da noite. Sinto forte cheiro de lixo podre. Escuto um barulho que aumenta gradativamente, também berros de velhos e crianças. Escuto agora enorme estrondo. Estou com falta de ar. Não vejo meus filhinhos, que ainda há pouco dormiam como dois anjinhos aos meus pés. Alguma coisa esmagam meus pulmões, tá tudo escuro. Ainda ouço gritos e choros. Ao fundo cães latem insessantemente. Sinto minhas pernas mergulhadas em água quente. Sinto cheiro forte de gás. Não posso mover a cabeça, tudo escureceu. Meu braço esquerdo apesar de adormecido, está sendo corroído por algum roedor, e, o meu direito fora esmagado, porque isto posso sentir com clareza.
Estou muito fraca. Cadê meus filhinhos?... Tiquim!... Lourdinha!! Por que essa tosse agora! Ai meu Deus! Será o meu fim? Será que vou mesmo acordar deste pesadelo?
Ai ai ai! Meu Jesus, só queria outra chance. Queria criar minhas duas crianças! "Tem alguém aí embaixo? Alô!... tem alguém aí? Aqui é o resgate!" O que aconteceu, meu Deus? Ai, não posso mais respirar. Devem ser o comboio... de... vermelhos. Áqueles carrrrr... carros. Os carros... vermelhos!
"Tem alguém precisando de ajuda aí embaixo? Alô! Bate na parede! Alô, se alguém precisar de resgate bata na parede ou gritem!... aqui é o resgate! Tem alguém aí embaixo?! Alô! Tem alguém aí embaixo! Tem alguém..."
-- Coronél... tenente Maicon falando!
-- Sua localização, Tenente!
-- Morro do Bumba.

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